A esquerda latino americana

Terminei de ler recentemente o mais novo livro do Emir Sader "A nova toupeira". Nesta obra o autor faz um balanço político da nova esquerda latinoamericana no contexto atual e problematiza os limites e possibilidades da atuação dos governos ditos populares e de esquerda. Além disso, apresenta quais os rumos que a esquerda deve trilhar para alcançar uma sociedade pós neoliberal e vislumbrando o do socialismo.
O livro começa com a descrição do que seria a nova toupeira. Este bixo, tão singular e de hábitos próprios, tem como característica central viver cavando túneis, quando emerge a superfície ele observa ao seu redor, se tiver tudo bem sai para fora, se não, volta a cavar e procura outro ponto para emergir. A esquerda latino americana trilha este caminho, quando o mundo, pós queda do muro de Berlim estava sobre hegemonia neoliberal, o nosso continente foi o primeiro a mostrar o esgotamento do modelo e alternativas para a sua superação.

Historicamente, segundo Sader, a esquerda em nosso continente emerge em momentos importantes, diante do acirramento da luta de classes. Os exemplos são vários: Zapata e "Pancho" Vila lutando pela revolução mexicana (destacando-se na luta pela reforma agrária - 1910); Fidel Castro e "Che" Guevara na revolução cubana (1959); Luís Carlos Prestes com a coluna Prestes e mais tarde na intentona comunista (1935); Tupararus, movimento urbano armado pela libertação nacional, criado no Uruguai (1960) ; e tantos outros exemplos. A história da esquerda em nosso continente foi de avanços e recuos.
No momento atual estamos na ofensiva da esquerda. Emir Sader analisa esta situação, na segunda parte do livro "A crise hegemônica na América Latina". Durante a década de 80 e, sobretudo, na década de 90 a América Latina, como todo o mundo, viveu um forte e intenso processo de desregulamentação da economia, desmantelamento do Estado, tudo sobre a égide do deus mercado, propagado pelo pensamento neoliberal. Foi um momento duro para a esquerda, pois além de não ter mais o referencial concreto do socialismo, que até 1989 era a URSS, a base de sustentação da esquerda estava sendo desmantelada. O mundo do trabalho foi fortemente abalado pela ofensiva neoliberal no que tange a desregulamentação do trabalho, atingindo fortemente o poder político dos sindicatos. Além disso, outro golpe, como dito anteriormente, foi a queda do muro de berlim, muitos intelectuais, até então de esquerda, ficaram perdidos e aderiram ao pensamento reformista ou em muitos casos ao neoliberalismo.
Apesar desta ofensiva muito forte, o modelo esgotou-se rapidamente, pois como coloca Sader, o neoliberalismo destrói suas bases de reprodução, como foca no setor financeiro (no lucro imediato) enfraquece o setor produtivo gerando desemprego, aumento da exploração e da desigualdade social. Logo, vieram as convulsões sociais nos países latinoamericanos. Esta crise neoliberal abriu um novo caminho para a toupeira emergir. A partir de então, os movimentos sociais se fortalecem, os partidos de esquerda conseguem ganhar mais espaço no eleitorado, surge um novo projeto político alternativo ao neoliberalismo.
Esta guinada inicia-se no final dos anos 90 e, sobretudo, na década de 2000. Hugo Chavez é eleito na Venezuela, Lula no Brasil, Kirchener na Argentina, Evo Moralez na Bolívia, Rafael Corrêa no Equador, Fernando Lugo no Paraguai. Esta mudança da conjuntura política gerou profundas mudanças no quadro social, econômico e político. Um exemplo disso, é que um dos maiores projetos neoliberais da década de 90, a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) não foi aprovado, graças a guinada para a esquerda dos governos latino-americanos.

Emir Sader aborda na terceira parte "O enigma Lula", os limites e possibilidades do governo. Afirma que no governo Lula houve diversos avanços. Sader enfatiza dois avanços, que ao seu ver, caracteriza o governo como sendo de esquerda: as políticas sociais, que foi um dos fatores para a diminuição da desigualdade social; e a segunda foi a política externa, o governo Lula rompeu a relação de subordinação à Casa Branca e priorizou a construção de uma agenda externa voltada para América Latina, e na relação Sul-Sul (África, Ásia e Oceania).
Sader é duro com os "pretensos"críticos de esquerda, no que ele chama de ultra esquerdismo. Estes críticos, tentam aplicar os princípios marxistas, desconsiderando a realidade, sem compreender o contexto político. Esta postura acaba fortacelendo indiretamente o projeto político da direita, pois quando muitas vezes há um governo popular, como o governo Lula, os setores de ultra esquerda desqualificam o governo como um todo, ao invés de disputá-lo e combater as políticas conservadoras do mesmo.

Por fim, Sader encerra o livro apresentando o desafio teórico da esquerda latino-americana, de como construir um referencial teórico a partir da realidade latino americano. Faz-se necessário construir um pensamento crítico autônomo, que considere as particularidades históricas do nosso continente, levando em consideração as contribuições dos autores clássicos marxistas (na maioria dos casos europeus e russos), mas subordinando as contribuições a luz da realidade latino americana.

Comentários

  1. Ótimo livro este do Sader...um dia você me empresta? kkkkkkkk
    Para quem quer refletir um pouco sobre as possibilidades da esquerda diante da atual conjuntura política, eu indico A Nova Toupeira.
    Mas o que eu gostei mesmo foi da citação do Lenin em seu perfil.

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  2. Muito bom. Só uma correção: Na pressa vc escreveu "Fernando Lugo do Uruguai" em vez de "...Paraguai". No mais, preciso ler mais os teóricos e discutir com masi profundidade.

    Só acho que o "Toupeira" no título do livro ficou ambíguo. A metáfora é boa, mas dá margem a um apelido de mau gosto para a esquerda (ou será que o Emir estava sendo irônico, assim como o Valdir Fiorini que se auto denomina @Esquerdopata, um adjetivo característico da Direita quando quer desclassificarum esquerdista.

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  3. *mais profundidade
    * desclassificar um

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  4. Valeu Thiago pela correção. Em relação ao nome toupeira, acredito que seja mais com a metáfora do elemento surpresa, característica da esquerda latino americana nos contextos políticos adversos. A Característica surpresa também faz parte da toupeira.Mas enfim, é minha interpretação, é possível também que o Sader quisesse ser irônico.

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